O ar morno da primavera. A intensidade do frio no inverno. A renovação do outono. O barulho do pinhão caindo no chão, retorcendo-se na chapa quente do fogão à lenha. Os de diferente sorte, escondendo-se sob a terra para no silêncio do inverno preparar a explosão de brotos. A nova árvore, macho e fêmea de longo tempo para amadurecer.
O entardecer laranja, as nuances. O pouso cansado, barulho em volta da mesa. O pão e o vinho, a cadeira de palha. A algazarra das crianças. Um movimento de dormir, mal o dia tinha se refugiado nas costas da noite. Noite e dia vividos nas suas primitivas intenções.
Terei esquecido de sentir o gosto da vida? A vida tem o gosto que damos a ela. Os sabores que somos capazes de identificar num copo de bebida. Numa comida feita na hora. Ao apressar a vida deixei para amanhã o seu sabor. Não lembro o que comi hoje e nem que gosto tinha. Às vezes precisamos de uma mão amiga, de um olhar atento ou de uma fala mansa que nos diga: olha lá o dia está cheio de sol esperando para ser vivido.
Um dia para ser sentido. Um dia para sentar e deixar o tempo comandar os passos, sem sobressaltos. Um dia para sentir o tempo na mão, na mansidão de um abraço, na ternura de conversas entrelaçadas.
Agora volto ao espaço de um tempo. Reencontramo-nos, o tempo e eu, nas longas sombras de um fim de tarde. Em pé sobre uma pedra espio a virada do tempo. Ele vem para mim e me sorri. E então nada passou. Aconchego-me em seu colo. Como um feto, recolho-me até que a imagem microscópica do que já fui um dia me atinja. Eu e ela agora somos de novo a mesma. Nem eu a esqueci no passado nem ela me abandonou no futuro. Damo-nos as mãos. E o anjo que nos uniu sorri.
0 comentários:
Postar um comentário